Quando um imóvel está à venda, deixa de ser só nosso
- Sónia Diniz

- 2 de fev.
- 2 min de leitura

Este é um tema sensível. E eu percebo porquê.
Um imóvel não é apenas paredes e divisões. É rotina, história, esforço. É “o nosso sítio”. E, muitas vezes, é também orgulho: foi ali que se fez vida.
Por isso, quando alguém me diz:“Mas isto sempre foi assim.”eu não corrijo. Eu concordo.
Sim, sempre foi assim. E isso tem valor.
A questão é que vender é mudar o papel do imóvel.
Quando o imóvel entra no mercado, passa a ter uma função: ser compreendido e desejado por alguém que não nos conhece.
E aqui está o ponto:o comprador não está a comprar a nossa vida. Está a tentar perceber a vida dele ali.
Às vezes o que está demasiado presente é a pessoa que vive no imóvel.Fotografias, coleções, lembretes, objectos pessoais, escolhas muito marcadas. Tudo isso faz sentido numa vida. Mas numa venda pode criar uma barreira.
Não porque seja “mau”. Mas porque ocupa o espaço mental do comprador.
E o comprador precisa de espaço para projetar. Precisa de sentir que há lugar para ele não só fisicamente, mas emocionalmente.
Eu costumo pensar nisto como uma transição:
enquanto vivemos, o imóvel serve-nos,
quando vendemos, o imóvel tem de servir o mercado.
E isso não significa apagar a personalidade. Significa torná-la acolhedora e acessível.
É um “meio termo” inteligente:
menos pessoal, mais universal,
menos excesso, mais respiro,
menos distração, mais foco.
Há quem sinta isto como perda. Eu vejo mais como estratégia.
Porque, no fundo, a venda é uma ponte.E para alguém atravessar, o caminho tem de estar livre.
E sim: custa.
Mas custa menos do que meses de incerteza, visitas que não dão em nada, e aquela sensação de “não sei o que falta”.
Às vezes, o que falta é só isto:o imóvel deixar de ser só nosso para poder ser de alguém.
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